Friday, April 20, 2007

A grama é barro em todo lugar


Não me lembro se minha mãe ou minha avó que sempre dizia que "a grama do terreno do vizinho sempre parece mais verde, seja para o bem, seja para o mal". Confesso que acho engraçado o fato dos noticiários brasileiros darem tanta ênfase ao massacre ocorrido em uma Universidade na Virgina, enquanto no país que moramos tal acontecimento ocorre diuturnamente.


Se nos EUA tal ato ocorre uma vez por ano, a "banalização do mal" daqui tem seus relatos diários. Por enquanto não aconteceu ainda de um único estudante ingressar em uma escola e sair disparando tiros, em compensação temos o caso do estudante de medicina que ingressou em um cinema matando e ferindo vários; temos a polícia invadindo favelas e deixando seu rastro de sangue e desrespeito ao cidadão; temos gangues rivais invadindo morros vizinhos e dizimando os "adversários"; temos assaltos banais, rotineiros e impunes, nos quais a vítima morre sem nem mesmo entendender que estava sendo roubada; temos quadrilhas estruturadas e espalhadas por todos os cantos do poder, a disseminar a corrupção e a violência; enfim...


Devemos parar de preocupar com a "grama verde do vizinho" e olhar para a realidade do nosso país, pois o fato de um estudante ter matado vários outros nos EUA não nos faz menos violentos ou mais civilizados!

Wednesday, March 28, 2007

Sem títulos, abreviações ou coisas que resumam


No meu "Tratado de Grandezas do Ínfimo" haveria somente uma frase:


Sou assim, sem meio nem fim ... sempre em busca de um recomeço ...



Por hoje é só, estou minimalista.

Sunday, March 11, 2007

Estado ou "estado"?


Confesso que não sou muito fã da Revista "Veja", a despeito de ser assinante, mas a edição que acabou de chegar (11.03.2007) me deixou surpresa e, ao mesmo tempo, feliz.


Na sessão "Carta ao leitor" a Revista decidiu que não mais vai grafar a palavra "Estado" com letra maiúscula. Informa que se outros conceitos tão importantes quanto o de "estado" são grafados com letra minúscula, razão não haveria em somente "estado" ser tratado como o grande "Leviatã", enquanto a grande massa se vê desprotegida e cada vez grafada com uma letra mais minúscula ainda.


Até mesmo no grande "Estado-Leviatã" concebido pela teoria hobbesiana, os súditos só devem obediência e respeito ao soberano se este proteger suas vidas, caso contrário, o pacto se quebra e a não obediência deixa de ser considerada uma "injustiça".


Para Hobbes o soberano não precisa ser "justo", não deve respeito a propriedade privada, não é signatário do pacto social, não precisa garantir liberdade nem igualdade (que segundo o mesmo autor, são conceitos puramente retóricos), um dos únicos deveres do soberano para com o súdito é de garantir-lhe a vida, razão pela qual o pacto social foi feito, pois se isto não for garantido é melhor voltar para o "estado de natureza", no qual "tudo é permitido", mas a vida é constantemente ameaçada.


A Revista Veja, ao que parece, resolveu iniciar um movimento de resistência contra os abusos do "estado-Leviatã-Brasil". A solução do semanário parece ser simples, contudo, é de grande valia para que repensemos a razão pela qual o "estado" existe.


A teoria de Hobbes hoje se mostra ultrapassada em quase todos os pontos (servindo mais como objeto de estudo do que prático), entretanto, serve para nos mostrar que até mesmo em um "estado-do-medo-e-da-sujeição" há espaço para preservação da vida!

Thursday, February 15, 2007

Vita


Os olhos de mãe fitavam o infinito. A dor que até outrora era moradora distante retornou com uma intensidade nunca sentida. Ainda era possível ouvir no vento o choro doído do filho que lhe fora tomado de modo tão brutal.


Parada e atônita sentia cada pedaço de si se despedaçando juntamente com os do filho. O cinto, que era de segurança, foi o objeto detonador de seu sofrimento. A brutalidade dos algozes de seu rebento era algo somente pensado em filmes do tipo suspense.


O que sente esta mãe? Nunca saberemos ao certo, mas podemos imaginar. Não deve ser fácil assistir o filho sendo arrastado por treze ruas, desfazendo-se pedaço por pedaço e não poder fazer nada senão gritar silente sua dor.


Em que pese meu respeito pelo Direito Penal e minha luta diária para ensinar a meus alunos a verem no criminoso um ser humano merecedor de respeito e cuidados, confesso, como mãe (e não como professora de Direito Penal) que para tal crime não há capitulação! A única pena que consigo entender como legítima para este crime é aplicar a "lei de Talião". Chego a triste conclusão de que para alguns tipos de pessoas os valores foram de tal forma soterrados que não há como encontrá-los novamente.

Tuesday, February 13, 2007

Nômades e apócrifos


Escrevo para crer

Escrevo para descrever

Escrevo para não sofrer

Escrevo para deixar de temer.


Escrevo para me enternecer

Escrevo para renascer

Escrevo para não me entristecer

Escrevo para não me perder.


Escrevo para ser

Escrevo para me ver

Escrevo para não morrer.


Escrevo para me conhecer

Escrevo para me ter

Enfim, escrevo por escrever...

Friday, February 02, 2007

Para algumas coisas, títulos, especificações e conceitos são meros rótulos...melhor deixar como substituto meu sinal gráfico favorito (...)


"Eu quero te dar mais do que o coração
Do que as notas e as palavras da canção
Quero delicadamente arrebentar
Toda lei do mundo e sua lógica.
Te dar de presente o que eu não tenho
O que eu não trouxe, de onde eu venho
Te dar um verão no meio de abril
As águas do rio nas margens do não.
Eu quero te dar mais do que mero amor
Quero mais do que quero e quero o que for
Pois se for será mais do que sei querer
Mais do que sabemos dar e receber.
Quero te dar mais do que vemos
Mais do que o eterno e do que o tempo
A neve que está no topo
Na beira do mar.
Quero te dar mais do que infinito azul
Mais do que é bonito e tem mais luz
Mais do que é mais do que é muito mais
Mais do que tudo do que o Deus dos deuses faz.
Quero te ofertar este momento
Mais do que o meu canto e meu silêncio
Quero me dar, e se quiseres me receber
Então o sol vai nascer no chão
O mar bater no céu da tua mão.
Querer me dar será querer que você se dê
Sem medo de ser e ter.
Sem não" .
(Lô Borges)

Ouvi esta música hoje e lembrei de tanta coisa boa! Resolvi postar e compartilhar... Let it be!

Wednesday, January 31, 2007

S A J





Chego a este final de janeiro extremamente cansada – trabalhei feito “gente grande”-, mas, ao mesmo tempo, muito feliz (tirando o fato de minha amiga querer ir embora daqui).
Hoje quero usar este “espaço” (engraçado o quanto a noção de “espaço” modificou nas últimas duas décadas, mas este não é o assunto agora ... continuando ...) para agradecer algumas pessoas que me são muito caras. Umas já estão no meu coração tem tempo, outras, de mansinho, foram chegando e tomaram seu espaço...
Decidi falar de cada uma de forma sucinta e EM ORDEM ALFABÉTICA, assim evito problemas futuros (rsrs).
BÁRBARA – obrigada pelo apoio logístico e pelo sorriso tímido;
CORINA – jeito doce de menina e maturidade para conversar sobre os mais diversos assuntos, já mora no meu coração tem tempo... Foi uma das minhas “contratadas” para fazer lobby para arrumar minhas primeiras aulas (rsrsrs).
DEISE “JULLY” – esta eu conheci nas audiências da conciliação (naquele tempo ainda me chamava de doutora –rs). Eita menina porreta! Petição dela não tem erro, é só passar o olho e mandar imprimir!
FERNANDA – outra residente antiga, conheci ainda usava uniforme da Cruz Vermelha, agora subiu em cima de um salto e ninguém mais dá conta do seu cabelão “loiro e liso”. Finge que não é crítica, mas é a aluna mais aplicada da Leiloca! Perdoe não ter colocado a foto que vc. tá, mas tava todo mundo com cara de velório! rsrs
GISELLE – primeiro conheci o “patrão”, mas depois que conheci a “patroa”, confesso que tenho dúvidas qual dos dois é o “mais, mais”! Menina alegre, competente e sempre disposta ao trabalho!
IVAN GABRIEL – este é para mim uma incógnita, se ouvi a voz dele mais de duas vezes, foi por ter me esforçado, mas não é por isto que vou dizer que ele não é “do bem”, só é tímido.
LEILA – é a figura mais figura que já conheci! Crítica? Não, bobagem! Inteligente? Mais do que deveria! Memória de “elefante”? Brincadeira! Sabe a roupa que a Viúva Porcina usou no 131° capítulo de Roque Santeiro! Esta tem cadeira cativa no meu coração (além de ter me ajudado a arrumar minhas primeiras aulas também).
LIDIANE – fala que parece que está sussurrando; delicada e gentil como só ela sabe ser, mas isto não impede que ela seja forte e decidida quando o assunto é trabalho (em tudo que foi audiência, desde o semestre passado, é esta que me acompanha).
RÉGIS – outro que tem tempo que conheço (e confesso que quanto mais conheço mais gosto – tirando a “encoxada”, claro – rsrs). Me fez trabalhar feito uma condenada em janeiro (não me dava folga nem pra um cigarro), mas sempre carinhoso e gentil (falava com tanto cuidado que eu nem sentia que estava me “mandando” – rsrs). Cuidado com as moças noivas heim!
RICARDO – custou a achar que eu merecia um sorriso, mas quando “ganhei” sua confiança, os sorrisos tornaram-se fáceis e verdadeiros. Só sabe fazer pergunta difícil (eu inclusive tenho a séria suspeita que ele ficava em casa estudando só para me colocar contra a parede no outro dia)...Execução por artigos????????? Quem faz isto????
WADERSON – tímido e sempre “na dele”, mas gentil e cuidadoso com seu trabalho e com todos que o cercam. Você vai longe (pode acreditar nisto!) e como diria um amigo querido “Deus quer, só basta você também querer”.

Falei um pouquinho de todos, pois esta é a forma que tenho para agradecer o cuidado, o carinho, a atenção e a disponibilidade que todos me dedicaram neste mês de tanto trabalho. E se tenho tantos atributos quanto vocês disseram, saibam que só sou assim por ver em vocês qualidades idênticas. Fui com vocês o que vocês foram comigo! Trabalhar com pessoas tão ÚNICAS é a melhor remuneração que poderia receber! A melhor coisa do mundo é me sentir amada e é assim que me sinto quando estou perto de vocês! Contem sempre comigo e mais uma vez obrigada por tudo!

Quanto ao resto ... ainda vou ter uma conversa com o “Big Boss” ... rsrs

Monday, January 29, 2007

Nome, sobrenome Saudade

Saudade é palavra que não tem tradução
Agonia corroendo cada pedaço de mim
Recuso a aceitar sua partida
Amiga querida, sem você sou soneto sem fim.

Choro sua anunciada ausência
Acho que nunca me preparei
Para que saísse da minha vida
Um dia quem sabe consiga aceitar
Contudo, acho difícil
Hoje só consigo mesmo é reclamar
Oh dor desmedida!

Tantos risos juntas
Oxalá!
Nada no mundo me fará te esquecer
Ofereço a você minha amizade eterna
Não se esqueça: te amo como amiga, irmã e filha.

Saturday, January 27, 2007

Tributo a um jovem senhor que virou estrela




Hoje morreu o pai de uma das minhas melhores amigas e por indisponibilidade de tempo não poderei estar com ela neste momento (Sara te amo e estou com você sempre, ainda que distante!)
A morte é um evento que nunca me assustou, tomara que demore, mas sempre me considero preparada para ela, o que me assusta mesmo é a vida: a que vivemos e a que deixamos de viver. Estamos sempre muito ocupados e preocupados com o tempo que não volta mais, com as oportunidades que perdemos, com as viagens que não fizemos e esquecemos do que ainda há por vir.
Ítalo, pai da minha amiga Sara, não se preocupava demais com o que já havia passado, ao contrário, estava sempre com os olhos voltados para o futuro. Forte, inteligente, talentoso, gentil - do modo que sabia ser - e cheio de planos para o futuro, mesmo quando o futuro se mostrou curto e incerto, soube morrer com a sabedoria e a decência dos bravos.

Enquanto muitos se agarrariam em tristeza e melancolia ele deixou-nos um exemplo de serenidade e resignação, mas, contudo, sem nunca se sentir derrotado pela doença que lhe consumia a vida aos poucos.

Nesta vida estamos todos morrendo, a cada dia morremos um pouco e por isso pensar demais no que deveria ter sido e não foi acaba sendo uma perda de tempo sem nenhum propósito. É melhor viver a vida hoje e agora ... única coisa para a qual a emergência realmente tem alguma valia. As noites que não saí, os sorvetes que não tomei, as praças que não visitei devem fazer parte do meu futuro e não do meu passado...esta é a vida que este jovem senhor que virou estrela viveu e ensinou às suas filhas e a que eu quero morrer aprendendo...

Thursday, October 19, 2006

Saturday, October 07, 2006

Saber, para depois criticar


Tenho um problema muito grande com pessoas que em tudo querem opinar, ainda que sobre o assunto tenham apenas uma vaga noção, ou melhor, somente um "ouvir dizer". Criticam veementemente o que não conhecem, e ainda fazem pose de "PHD".

Ontem tive uma discussão de horas com um sujeito que "achava" saber tudo sobre Kelsen. Eu não sei sobre este autor nem um décimo do que gostaria, mas meu interlocutor nem noção do que estava falando tinha. Iniciou com a crítica costumeira, ou seja, a de que para kelsen o Direito estaria resumido à norma e, portanto, em última instância, o objetivo do autor seria o de validar cientificamente o caos social (e juridico).

Quem faz uma critica desta nunca entendeu Kelsen. E vou além, nunca leu nada escrito por este autor. Kelsen escreve de Direito, principalmente quando trata do problema da justiça, como se estivesse fazendo poesia, é algo de extrema beleza e que, longe de querer validar o caos, busca apenas o pluralismo.

Deixando de lado a poesia dos escritos sobre justiça, no campo da Ciência o que Kelsen trouxe para o Direito, ao contrário do que meu debatedor disse ontem, não foi o caos, mas a ordem. Usarei um exemplo que li outro dia que consegue resumir a intenção de uma Ciência do Direito:

Imagine uma mesa redonda na qual são convidados para proferir palestra um jurista, um antropólogo, um sociólogo, um cientista político, um filósofo e um historiador. Iniciada a palestra, ao invés de cada um falar a seu tempo, todos começam a falar ao mesmo tempo, fazendo com que o público, além de estupefado, não consiga entender absolutamente nada, eis que a desordem verborrágica é reinante...este é o mundo jurídico antes de Kelsen: uma desordem! Todos queriam falar sobre o direito ao mesmo tempo e, dependendo da opinião, ou ponto de partida, o resultado final seria completamente diverso e, muitas vezes, contraditório.

Kelsen trouxe a ordem. Nunca proibiu a análise do antropólogo, do sociólogo, do cientista político, do filósofo ou do historiador, apenas disse que tais ramos não eram o do jurista, sob pena de, aí sim, termos o caos jurídico instalado. Os juízos de valor devem ocorrer sim, mas não é este o papel do cientista do Direito!

Meu caro amigo de ontem...só posso pedir para que leia kelsen e então entenderá o meu fascínio...e, principalmente, verá a grandiosidade do pensamento kelseniano!

A difícil arte de ensinar...



O professor, muito além de repetir fórmulas, conceitos e teorias prontas, deve encorajar, sustentar e chamar o aluno para o conhecimento. Não conheço uma única mãe que tenha ensinado seu filho a andar ou comer abrindo um livro sobre "os primeiros anos do bebê" para que ele aprendesse. A mãe, educadora nata, não usa fórmula, ela incentiva, faz com que o bebê acredite que ele consegue caminhar sozinho.

Professor fala com o olhar; ajuda com um sorriso; e ensina ao compreender e acreditar que o aluno é capaz!

Poucas coisas já me deram tanto prazer como o fato de poder ensinar, mas além de me preocupar com os conceitos (nem sempre bem formulados em Direito) e com as teorias (muitas vezes contraditórias), procuro mostrar para meus alunos que eu acredito neles, ainda que nem eles mesmos acreditem! Isso é o que considero verdadeiramente ensinar, pois o resto... é só abrir o livro!

Ensinar para quem não deve aprender...


"A burrice é muito útil do ponto de vista político e social. Aldous Huxley afirma que a estabilidade social do Admirável Mundo Novo se devia aos mecanismos psicopedagógicos cujo objetivo era o de emburrecer as pessoas. A educação se presta aos mais variados fins. Pessoas inteligentes, que vivem pensando e tendo idéias diferentes, sao perigosas.

Ao contrário, a ordem político-social é mais bem servida por pessoas que pensam sempre os mesmos pensamenos, isto é, pessoas emburrecidas. Porque ser burro é precisamente isso, pensar os mesmos pensamentos, ainda que sejam pensamentos grandiosos. Prova disso são as sociedades das abelhas e das formigas, notáveis por sua estabilidade e capacidade de sobrevivência". (Casas que emburrecem - Correio Popular 09/04/2000).

Acho que não precisa dizer mais nada...

Wednesday, August 02, 2006

Relações de consumo


A globalização é muito mais que a economia de mercado, os grandes negócios transnacionais e a massificação cultural advinda de tudo isto. Ela traz consigo conseqüências humanas relevantes, que vão desde a pobreza e a miséria tornadas comuns e inexoráveis até a mercantilização das relações afetivas.
Em um mundo no qual consumir se tornou a palavra de ordem, absolutamente nada que não estiver intimamente ligado a tal verbo é considerado útil. A saúde do capitalismo depende de forma crucial do homem consumidor e, de preferência, de um consumidor incapaz de fazer qualquer valoração acerca da necessidade ou não no ato de consumir.
As relações afetivas não passam ilesas às exigências do mercado: é preciso consumir! Nenhuma relação pode ser fadada ao perpétuo, nem as com os objetos – propriamente ditos – nem as relações entre pessoas, sob pena de haver um sério corte na cadeia consumidora.
Dentro desta perspectiva, pessoas se tornam coisas, relações íntimas se transformam em meios, nem sempre hábeis, para a busca de satisfação imediata de um desejo que nem mesmo os envolvidos conseguem entender suas razões.
A globalização trouxe para o seio das famílias uma tendência ao consumismo desenfreado, não valorativo, no qual pessoas são descartadas dentro da mesma lógica de uma economia de mercado.
A economia de mercado produz o efêmero, o precário, o volátil. Nenhuma relação com objetos deve ser feita para durar, caso contrário, o mercado se estagnaria e o capitalismo estaria condenado ao fim. É preciso criar desejos, conceber o inconcebível, satisfazer o agora para então, novamente, demonstrar que existe um mundo novo de possibilidades as quais aqueles que se mantiverem de fora estarão condenados a não ter. E, “não ter” significa não estar inserido, ser marginal. Adjetivos estes que ninguém quer possuir dentro desta "roda que nunca pára".
A sociedade de consumo deve ser composta por pessoas impacientes, impetuosas e indóceis que deverão ser facilmente instigáveis para perderem o interesse no objeto o mais depressa possível, eis que a cultura da sociedade de consumo deve ser baseada no esquecimento e não no aprendizado.
As relações tornam-se um constante poema de Walt Whitman “Canto da Estrada Aberta”, no qual não é permitido permanecer, ainda que sejam doces e aconchegantes os “armazéns”.
O estarrecedor deste novo mundo é que as pessoas passam a agir assim sem nem mesmo saberem o porquê de suas atitudes: agem como compulsivos e mascaram sua compulsão sob o nome de vontade. Acreditam fielmente que são elas que escolhem, quando, na verdade, não passam de iscas de um sistema frio e desprovido de sentido humano.
A relação com o mundo torna-se algo puramente estético, sem qualquer valoração: não importa o que ficou para trás, importante é o que virá logo após, ali sim, reside toda a felicidade para o homem do consumo.

Saturday, July 29, 2006

Deus, novamente a bola da vez...


Novamente Deus é "bola da vez". Na Idade Média Ele justificava a necessidade da fogueira, do esbulho e da opressão, nos tempos atuais, passou a justificar o que eu considero a mais profunda barbárie: a guerra.

Eu não acredito nos jornais! Precisava ver de perto, aliás, sentir de perto, para, assim, constituir alguma propriedade em meu falar. Como não posso, fico aqui filtrando o que me chega e tentando entender o ininteligível.

O Holocausto, não sei por quais razões, eis que não tenho parentesco algum com os judeus, sempre foi algo que me incomodou. Desde o momento que tomei conhecimento daquelas atrocidades, nunca mais me vi possibilitada de ignorá-las. Sempre que me perguntam sobre algo comovente, que me faz parar para pensar, o holocausto (com letra minúscula mesmo), é a primeira coisa que vem a cabeça: eu não consigo acreditar que tudo aquilo aconteceu e NINGUÉM fez absolutamente nada!

Chego a infeliz conclusão que as pessoas que viveram naqueles tempos não se davam conta do horror e, assim, continuavam suas vidas como nada houvesse de estranho ou impróprio. E o mais terrível é que estou quase admitindo que estamos vivendo uma fase bem parecida, só que, como estamos inseridos no contexto histórico, não temos habilidade para ver e, assim, fazer parar antes que a geração futura nos olhe como eu olho para a passada: como passivos que só se preocupavam consigo.

Israelenses estão dizimando Palestinos et al e, em contrapartida, Palestinos et al estão dizimando Israelenses - a única novidade aqui em relação ao holocausto é a bilateralidade...

Hitler queria uma raça ariana, pois achava que esta era superior a qualquer outra; Israelenses e Palestinos et al querem território, e acreditam que em nome disto podem lançar mão de qualquer ato. A mesma intolerância que marcou o holocausto, é a viga mestra dos conflitos no Oriente Médio.

A consideração pela humanidade do outro, implica em aceitarmos a diferença que nele reside; e aceitar a diferença não significa ignorar, pois se cada um persiste em manter seu irredutível círculo de "absolutos", a diferença nunca será vencida e o fim será a guerra.

E quando ela acontece, Deus é chamado para legitimar o conflito que ocorre unicamente em função da intolerância. Dá-se o nome de santa a uma guerra que luta apenas pela universalização, seja dos valores, da cultura, do consumo ou da própria crença. Uma guerra na qual ser compreensivo e aceitar o diálogo, a despeito das discordâncias ou antagonismos, é algo que chega a parecer surreal...

Monday, July 17, 2006

A vida é cheia de som e fúria



Ontem fui assistir a uma peça que realmente vale a pena (dentre as tantas que não valem). Foi apresentada no Grande Teatro do Palácio das Artes e se chama "A vida é cheia de som e fúria".

É uma verdadeira viagem musical pelo pop rock internacional dos anos 70 e 80. Conta a história de um DJ londrino que revive seus amores e as músicas que marcaram o tempo destes relacionamentos. Além de oferecer diálogos extremamente ricos, a peça é uma verdadeira aula sobre o rock.

O ator brilha no palco e tem uma atuação ímpar. O cenário e os efeitos visuais são ótimos e as músicas...perfeitas!

A peça faz parte do circuito cultural do Banco do Brasil, que está trazendo a Minas no mês de julho, além do dito espetáculo, várias exposições, como a de Picasso, shows, mostras de cinema e entretenimento. É admirável ver como o Palácio das Artes estava lotado ontem...dá orgulho de ser mineira!

Friday, July 14, 2006

Dono da verdade (existe verdade?)


Tem horas que eu me espanto com o ser humano! Ontem fui fazer uma audiência e fiquei constrangida pela forma como o nobilíssimo juiz tratou as testemunhas.

Era uma ação de usucapião e eu precisava demonstrar que o tempo de permanência do meu cliente no imóvel, somado com as posses anteriores, perfazia o lapso temporal exigido pela lei para concessão do direito. Arrolei três testemunhas que haviam sido posseiras do imóvel antes do meu cliente. Eram três senhores, com idades variando entre 75 e 69 anos.

Como é do conhecimento de qualquer pessoa dotada de inteligência mediana, a idade faz com que a elaboração do raciocínio se torne mais lenta e, em alguns casos, um pouco mais confusa. Entretanto, o excelentíssimo juiz de direito da comarca de Betim/MG não deve ter conhecimento de tal fato, uma vez que tratou os três senhores de forma vergonhosa.

Disse a um deles (o de 75 anos) que ele não tinha que "achar" nada, pois ali não era mesa de "buteco" e, portanto, que ele deixasse suas mentiras para tais ocasiões. A outro (o de 71 anos), de modo áspero e rude, ordenou que se atesse a pergunta feita e parasse de fazer rodeios.

Nestas horas eu perco um pouco a esperança no homem...o mínimo que podemos esperar de juiz é compreensão, pois ele foi o "eleito" para dirimir conflitos e não os ignorar ou, pior ainda, os criar...

Saturday, July 01, 2006

Tolerância: o caminho para a paz



O homem desenhado por Dostoiévski no livro "Memórias do Subsolo" nos demonstra o tamanho da pretensão humana em estabelecer um ideal de justiça que se queira válido para todos. Freud, citado por Eugène Enriquez, também nos dá um esboço parecido sobre o tema:

“o homem é, com efeito, tentado a satisfazer sua necessidade de agressão à custa do próximo, a explorar o seu trabalho sem compensá-lo, a usá-lo sexualmente sem seu consentimento, a apropriar-se de seus bens, a humilhá-lo, a impor-lhe sofrimentos, a martirizá-lo e a matá-lo. Homo homini lupus: quem teria coragem, diante de todos os ensinamentos da vida e da história de contrariar esse adágio?”[1]

É este homem, tanto o da literatura dostoieviskiana, quanto o dos estudos psicanalíticos de Freud, que tenta buscar em suas teorias um ideal absoluto de bom, de justo, de virtuoso, entretanto, nem ele mesmo sabe se seria verdadeiramente capaz de se comportar conforme tenta prescrever.
Aceitar o relativismo de valores proposto pelo Jurista e Filosofo Hans Kelsen é o mesmo que afirmar que todo e qualquer princípio de justiça pode e deve ser aceito, pelo menos a priori. Aquele que concebe um ideal absoluto de justo estará fazendo parte da crença ingênua de que somente seu ponto de vista ou seus valores são parte da história cultural de todo um povo. Não admitir o pluralismo de valores e, conseqüentemente dos princípios de justiça é, em última instância, negar a própria essência contraditória do homem.
Ser relativista no que se refere aos princípios de justiça é ser tolerante e a tolerância impõe que formalmente devemos respeitar a diferença, ainda, e principalmente, quando ela não é por nós compartilhada.
Recusar a diferença seria o mesmo que cair em um narcisismo mortífero e destrutivo, no qual o outro deixaria de ser o nosso espelho, e com isto nossa medida, para tornar-se um inimigo a ser combatido. Se todo ser humano deve contribuir para a vida do espírito, conforme acreditava Freud, sob pena “de cair vítima de uma doença esterelizante e mutiladora ou, pior ainda, de tornar-se o arauto do mais radical, deve ver no outro um ser que, embora diferente,”[2] é indispensável à sua própria existência.
Um princípio de justiça relativo é aquele que permite o pluralismo por meio da tolerância: que prefere Eros a Tanatos. E este é o caminho apontado por Kelsen, o caminho que devemos seguir.

[1] NOVAES, Adauto (Coord.). Civilização e Barbárie. p.53.
[2] NOVAES, Adauto (Coord.). Ob. cit. p.53.